A importância dos rudimentos

Novembro 13, 2008 por tiagoluispereira

O que é rudimentar, obviamente, é importante. Porém, nem todos os estudantes percebem essa obviedade, portanto, irei direto ao ponto neste post: não se pode tocar bem bateria sem um domínio mínimo dos principais rudimentos.

Mas o que são os rudimentos? São sequências definidas de toques a serem treinados repetidamente, padrões de combinações que constituem um exercício, como por exemplo o paradidle: direita/esquerda/direita/direita/esquerda/direita/esquerda/esquerda.

O paradidle, por sua vez, é uma variação, um rearranjo de outros dois rudimentos ainda mais rudimentares (?), o toque simples (direita/esquerda/direira/esquerda) e o toque duplo (direita/direita/esquerda/esquerda). E assim, reagrupando de maneiras diferentes os toques com as baquetas das mãos esquerda e direita, vão se construindo vários outros rudimentos.

A Percussive Arts Society, maior entidade de divulgação de bateria e percussão do mundo, aponta 40 exercícios básicos para serem treinados na caixa clara. São os famosos 40 rudimentos. Mas não se assuste, dentre esses 40 há muita repetição. Sobram, depois de uma boa peneira, uns 15 exercícios que devem, esses sim, ser treinados à exaustão.

Segue o link para baixar o pdf com os 40 rudimentos. Quem tiver dificuldade em ler partitura pode ouvir os rudimentos, um a um, clicando em “listen to the rudiments”. Bom estudo. 

http://www.pas.org/Resources/rudiments.cfm

Aaron Spears e as notas aleatórias

Novembro 12, 2008 por tiagoluispereira

Aleatório não seria exatamente o termo para caracterizar as rajadas de notas que esse jovem americano aplica em suas performances. Mas que às vezes elas soam aleatórias, isso sim. Meu irmão soltou um comentário pertinente ao assistir à sua apresentação no Modern Drum Festival 2006, num DVD, ao meu lado - comentário que sintetiza um pouco a peculiaridade de Aaron. “Esse cara parece um louco tocando”, disse.

Mas de louco o cara não tem absolutamente nada, a não ser que passemos agora a chamar de loucura a inventividade, a criatividade e o descontentamento com a mesmice. Aaron é o nome que escolhi dentre uma série de outros grandes instrumentistas surgidos nos E.U.A nas útlimas décadas e com perfis timbrísticos e técnicos semelhantes (poderia citar também Ronald Bruner Jr e Ted Campbell). Porém, mesmo dentre esses Aaron se destaca.

Sua performance soa ao mesmo tempo tecnicamente elevada e artisticamemte relevante. Suas rajadas de notas poluem, mas são administradas com comedimento ao longo do som. Dessa forma parecem ilhas de rudimentos, pontos tensivos onde o músico aproveita para descarregar energias acumuladas ao longo da condução do groove.

No mais, seu groove (como o da maioria desses “novos” grandes bateristas) soa redondo, bem estruturado e contido. O pricipal diferencial de Aaron é justamentente o comedimento.  Seus solos não são tão intensos em número de notas como o dos outros que citei acima. Além disso, ele apresenta uma predileção por viradas sincopadas, e é esse elemento que dá impressão de aleatoriedade. Enfim, vejam.

Enciclopédia

Novembro 12, 2008 por tiagoluispereira

Se a breve listagem e comentários que tenho feito aqui sobre alguns dos nomes mais relevantes da história da bateria gerou interesse em alguém, uma dica: siga pesquisando no endereço http://www.drummerworld.com/.

O site é o mais completo do gênero, listando centenas de nomes e colocando informações interessantes de suas carreiras. É como uma grande enciclopédia e serve como guia prático para quem pretende conhecer mais do instrumento e seus principais ícones.

Na própria sessão de cada artista há uma coletânea de vídeos de performances. Basta clicar e curtir.

Eu, eu mesmo e uma RMV Road Up

Novembro 12, 2008 por tiagoluispereira

Enfim exponho aqui o link para o trabalho desse que alimenta o blog. Trata-se de uma apresentação ao vivo do Canela Brasil no Big Bowling, em 2007. O material gravado nesse dia foi compilado e transformado num DVD de demonstração da banda e será comercializado futuramente.

A música é “Simples Presídio da Alma”, a mais intensa do segundo disco do Canela, “Aqui ou Lá”, lançado em 2005. É também uma das faixas que eu mais gosto de tocar nos shows. Ela exige pegada intensa, precisão nas viradas e atenção nas trocas de andamento, pois não há metrônomo, a banda inteira é que tem que se virar sozinha.

Por isso considero essa gravação interessante. À época o Canela Brasil estava a todo vapor, ensaiando com frequência e a performance revela segurança da parte de todos os inegrantes.

O kit usado é uma RMV Road Up. Não sou fã de tons reduzidos nem acho que seja o ideal para a sonoridade do Canela Brasil, mas no momento era o que tínhamos e o resultado ficou dentro do esperado. Detalhe: ao final (aos 5min18seg), a inversão de andamento que promovo foi intencional, porém nasceu de um erro na sessão de gravações do disco que acabou sendo bem-vindo e acatado. Até hoje é um momento de tensão para a banda aquela inversão.

Ramiro Musotto e seus desenhos

Novembro 12, 2008 por tiagoluispereira

O percussionista, compositor e prudutor musical argentino Ramiro Musotto não é um artista plástico, mas trabalha minuciosamente com desenhos. Desenhos rítmicos. Desenho rítmico é o termo aqui escolhido para designar padrões de batidas ultilizando as peças disponíveis e que preenchem o groove de uma forma característica e clara.

A rigor, todos os bateristas trabalham desenhando grooves pois é só com a reiteração de padõres que se estabelece o fundo de pulsação necessário para reger uma banda. Mas há artistas que fazem isso com mais esmero, mais capricho e obtêm um resultado cristalino e perfeito.

Exemplo contrário do que estou descrevendo seriam os jazzistas mais virtuosos, que a todo momento procuram burlar os padrões e nunca se repetir, transformando a pulsação rítmica em mero roteiro a ser seguido com quase total liberdade de atuação. Daí surgem aqueles solos com digressões rítmicas muito complexas, que ferem a continuidade natural dos grooves.

Ramiro Musotto prefere o artesanato do groove, o desenho amiudado das batidas quase lineares. Nenhuma pretensão de virtuosidade, apenas o passe perfeito para o gol do músico que o acompanha. Há muita beleza nisso, há sensibilidade, bom gosto e noção geral de música.

Não é a toa que Musotto acompanha, no vídeo abaixo, um dos maiores compositores populares do Brasil, Lenine. Trata-se de um concerto de música popular, de canção, modalidade musical na qual os valores musicais individuais dão lugar ao projeto entoativo do compositor, a suas propostas de junção de letra e melodia. Nesse sentido, Musotto é um autêntito músico-artista, nesse caso, acompanhando outro. Vale a pena acompanhar.

Sim, elas sabem tocar, definitivamente

Novembro 12, 2008 por tiagoluispereira

Fechando esse pequeno especial sobre mulheres bateristas, apresento a italiana Alessia Mattalia, outra musicista muito respeitável. Creio que com essa tríade (Vera Figueiredo, Hilary Jones e Alessia Mattalia) eu consiga desbancar qualquer teoria machista sobre bateria. 

O surgimento de bateristas profissionais mulheres não acompanha nem de longe o de homens, mas fique claro que isso se deve a qualquer motivo menos à incompatibildade física com o instrumento. Outra pseudo-teoria difundida a respeito disso é que mulheres têm menor capacidade motora, que sua coordenação é falha etc. Outro mito, ou o que são então esses três exemplos que citei, aberrações?

A todas as adolescentes e mulheres que sentem vontade de tocar bateria e por algum motivo acham que não cairia bem, que bateria é coisa de homem: arregacem as mangas e sentem a mão nos tambores!

Segue a excelente Alessia Mattalia.

Sim, elas também sabem tocar, e muito!

Novembro 12, 2008 por tiagoluispereira

Na esteira do comentário anterior, segue mais uma baterista mulher de tirar o chapéu, a americana Hilary Jones. Ao contrário da brazuca Vera Figueiredo, Hilary Jones segue uma linha mais virtuosa, com mais técnica e menos energia. Porém, a sobriedade e precisão de suas notas descem redondamente, limpas como as peles porosas de seu kit. 

Hilary é uma prova viva e atuante da capacidade feminina de tocar formidavelmente bateria. Não, ela não precisa fazer força.

Eis o vídeo. Não se enganem, depois do começo simplório segue uma sequência de especiais executada com exímio domínio técnico e bom gosto.

Sim, elas também sabem tocar

Novembro 12, 2008 por tiagoluispereira

Acatando à sugestão surgida na visita que fiz ao Bom Jesus/Ielusc para falar sobre bateria, destaco alguns nomes femininos que fazem a diferença no meio baterístico. Ver um baterista executando ritmos intensos e rápidos pode sugerir a necessidade de força, fato que aproxima automaticamente o instrumento à figura do homem. Mas isso é bobagem, puro mito.

É claro que se despende mais energia tocando bateria do que violão ou baixo, por exemplo, mas a força necessária para golpear os tambores não chega a justificar uma supremacia masculina no instrumento – que realmente existe. Acho que o que faz surgirem muito mais bateristas homens do que mulheres é um fenômeno cultural sem nenhum nexo com o biotipo masculino ou feminino.

Prova disso é Vera Figueiredo, mais importante baterista mulher do Brasil e reconhecida também no exterior. Vera já levou sua pegada intensa e nada delicada aos auditórios de vários lugares do mundo, participando de festivais de bateria e percussão. Atualmente pode ser assistida todos os sábados no programa “Altas Horas”, da Rede Globo.

O paradigma do rock

Novembro 12, 2008 por tiagoluispereira

Nos círculos roqueiros John Bonham é, disparadamente, o nome mais citado quando o assunto é bateria. Ele é quase uma unanimidade em matéria de importância para a história do instrumento. Seus solos longos e vigorosos no meio dos concertos do Led Zepellin colocavam a bateria no centro das atenções, como uma parte importantíssima do espetáculo. Poucos bateristas têm talento e estrela suficientes para alcançar tal feito. Só isso já renderia muitas reverências, mas há mais.

Trinta anos depois de suas performaces mais marcantes é fácil dizer que Bonham não apresentava exímio domínio técnico nem poderia ser considerado um instrumentista virtuoso. Ao primeiro contato com bateristas extremamente técnicos (Vinnie Colauita, Dave Weckl, Billy Cobham etc) fica a impressão de que Bonham não merece a popularidade que carrega, porém só sustenta uma idéia dessas quem aprecia a bateria (e a música em geral) como competição, não como arte.

Mesmo uma apreciação fria e técnica de seus solos revelaria excelente domínio do instrumento, velocidade acima do comum e utilizada com bom gosto e desenhos de viradas muito bem construídos (na maioria das vezes utilizando frases lineares). Mas o ponto forte de suas performances, aquilo que só Bonham legou a toda uma geração futura de bateristas – que inclui Dave Grohl (Nirvana), Mike Bordin (Faith No More) e muitos outros – consiste no peso das notas, na pegada, na energia que sae dos punhos, atravessa baquetas e peles e chega, arrebatadoramente, aos ouvidos da platéia.

Ver e ouvir o baterista do Led Zepellin tocando é como ser transportado para os rituais primitivos em que a percussão tinha o poder e a incumbência de criar o clima transcendental no ambiente. Seu som se assemelha aos tambores do camdomblé evocando a presença de entidades.

Ou seja, a importância de Bonham está no fato de ele cumprir, a um só tempo, a função de divisor de águas (pois funda uma nova forma de tocar, uma nova intenção) e de rica fonte de estímulos aos sentidos (pois é difícil não se enlevar pelos seus grooves tribais). E isso só um instrumentista-artista grandioso é capaz de fazer.

Abaixo um breve vídeo de um solo.

O retorno das pinguins

Novembro 11, 2008 por tiagoluispereira

Tive uma grata surpresa semana passada ao visistar o estúdio Mojo, do amigo André Cidral. Reluzente ao fundo da sala de ensaio estava uma novíssima bateria Pinguim. Perguntei onde ele teria mandado reformar aquele exemplar raro, ao que ele me respondeu que recentemente mandara fabricar a bateria sob medida.

A Pinguim foi a primeira fábrica de bateria a se destacar no Brasil. Fundada em 1952 no Estado de São Paulo, ela representou o que havia de melhor no país nas décadas de 60 e 70. A maioria das pinguins antigas são baseadas nas clássicas Ludwig, com bumbo de 18″, tom de 12″, surdo de 14″ e caixa de 14″. Mas agora, comprando direto do site da fábrica, o cliente pode pedir na configuração que quiser. A do André, por exemplo, tem bumbo de 22″ e dois surdos de chão, de 14″ e 16″.

Um kit antigo da Pinguim

Um kit antigo da Pinguim

Além de escolher a configuração é possível também optar pelo acabamento e cores  desejados. É só mandar uma descrição do kit pretendido que os fabricantes levantam o valor. O que posso dizer sobre a Pinguim é que ela concorre de igual pra igual com as outras marcas nacionais em ascendência nos últimos anos, Adah e RMV. Somando-se a tradição da marca, acho que é questão de tempo para muita gente passar a trocar séries decadentes de baterias importadas (Pearl, Mapex e até Yamaha) pelas melhores séries da brasileirinha. O custo-benefício é pra lá de atraente.

Eis o link do site pra quem se interessar. Na sessão “mídia” é possível ouvir uma performance da Pinguim.

http://www.pinguimdrums.com.br/index.htm